João Baptista de Souza Negreiros Athayde - Advogado, ex-Professor universitário, Escritor e Poeta. Radicado em Piracicaba desde 1971. Presidente da 8ª Subsecção da OAB- Piracicaba, gestão 2004/2006 Presidente do Tribunal de Ética da OAB - Piracicaba, gestão 2007/2009.

Membro fundador do Centro Tupiense de Literatura, na cidade de Tupi Paulista (SP), em 1968. Pertenceu à extinta Associação dos Escritores de Piracicaba.

Membro da Academia Piracicabana de Letras - Cadeira nº 34 - Patrono Adriano Nogueira.

Membro fundador do Centro Literário de Piracicaba (CLIP) e Atual Presidente.

Participou de diversas Antologias Poéticas em Piracicaba, entre as quais :
“É tempo do Poesia”-“Lavrapalavra”-“Cantopleno”-“Liracicaba”-“Clube dos Escritores”-“Força Motriz”-“Clipoetas I”, II, III, IV, V e VI”.

Colaborador das colunas literárias do “Jornal de Piracicaba” e “Tribuna Piracicabana”
Membro da Comissão de Seleção e Premiação do “Prêmio Escriba de Poesia” IV (1996), V (1998), VI (2000) e VIII (2004).

À TARDE

O doce encanto da tarde calma
Me alcança a alma sempre a cismar
O ameno enlevo do dia exangue
Me agita o sangue, me faz poetar

Será, talvez, por que sem alarde
O fim da tarde desperta amores?
Será, talvez, que essa estranha hora
Nos traz de fora tamanhas dores?

Quem sabe, enfim, donde vem um poema?
(atroz dilema que a alma assola)
Talvez do Olimpo onde as Musas cantam
e a voz levantam em barcarola

Talvez das cores, dos sons vagantes
Desses instantes de inquietação
Talvez do pranto do povo inerme
que feito verme rasteja em vão

Talvez das iras da populaça
Que toma a praça p'rá protestar
Talvez do grito dos que tem fome
Que nem tem nome pra assinar

Quem sabe venha desse delírio
Que só o martírio sabe plantar?
A fronte curva-se a tal enredo
Pesa o segredo, qual canitar

Entanto, eu sei que a poesia existe!
Alegre ou triste é potente voz
Que vem do abismo, ou que vem do espaço
Num longo traço se estende após.

Mas, nessas horas da tarde calma
Se agita a alma num tom disperso
Então descubro que, sem alarde,
Na branca tarde fala o Universo.

Athayde



ALEGORIA DA SAUDADE


A vida inteira, às vezes, se condensa
em momentos assim de nostalgia
(como essa tingindo o fim da tarde)

Das dobras entreabertas do passado
renascem ecos de sons, imagens pálidas
misturando sentimentos já distantes

Na névoa tênue dessas longas cismas
O coração navega de lembranças
no mesmo barco em que sulcara sonhos

A atonia das horas arrastadas
desenha aos poucos um cansaço estéril
na paisagem salpicada em reticências

...e a alma vai alinhavando de silêncios
esses restos de tarde debruçados
no peitoril da saudade de outros tempos.

Athayde



ANELOS

Quando da noite as sombras negras descem
E a terra envolvem num extenso véu
Quando na sombra a voz dos astros fala
O amante exausto na deserta sala
Transborda em pranto todo o drama seu

Sou eu o amante! E essas noites negras
Da vida fazem-me perder o alento.
É quando esqueço da esperança o brilho
É quando perco do ideal o trilho
Troco o futuro por um só momento.

É um momento pelo qual a vida
Daria em troca se ela aqui estivesse,
Mas, é o sonhar perdido de um amante
Ela ver-me não quer por um instante
Ah! Eu seria feliz se ela quisesse.

E que momento largo não seria
Ilusão tamanha eu viver quisera
Beber de uns lábios róseos, delirante
A seiva rica, ardente, inebriante,
Queimar-me nesse fogo, ai se eu pudera

E sua voz depois, febril e lânguida
Arfante, débil, ardente de desejo
Na volúpia sem termo do momento
Quisera ouvi-la, quase num lamento
Em êxtase pedir: “ Me dá um beijo”.

Depois... Depois... Mas que sonhar insano
Que doida fantasia! Que ilusão
Já a alvorada vem quebrar os elos
Dos meus sonhos gentis, sutis anelos
E o sol me vem gelar o coração.

Athayde



ANTES E DEPOIS
(ou Transformação)


Noites de bruma, séculos de fome
Todo o mal que a vida nos consome
Tudo: a dor, a lágrima, a desdita
A angústia, o crime, a tristeza infinita
Mudou-se tudo ao sopro do porvir
Ouve-se dos anjos o celestial sorrir
E o amor que era sobre a terra errante
Agora mora em toda alma...e num instante
Transforma os rostos lívidos de horror
Num riso cheio de luz e de calor.

Os corações outrora, intumescidos
De mágoa e ódio, sempre envelhecidos
Pela crença desastrosa do pior
Agora arfam, num arfar melhor
E a ira, a inveja são hoje esquecidas
E as terrenas paixões todas já vencidas

As almas cantam uma eternal poesia
Onde o verbo reluz na doce profecia
De que amanhã o abismo tão profundo
Não mais será abismo. Plano é o mundo
Abismos eram as almas por nós enclausuradas
Nas celas das paixões desenfreadas
Que sempre alimentavam a existência vã
Sem crença e sem risos...nem amanhã

II

Hoje sorriem ao sopro do porvir
Pois só quem ama e crê pode sorrir.

Athayde



CAOS E POESIA

A alma
a alma cheia de poesia
que vem de todo canto
inundada do silêncio das horas
mortas, talvez,
mas longas
e intermináveis

As palavras jazem perdidas
infinitamente impotentes
para traduzir o silêncio
e explicar essa longa morte das horas
enclausuradas, asfixiadas
nos desvãos do tempo

E o silêncio permanece
diluviando palavras
pensamentos
e cismas

Largo naufrágio esse
tragando o tempo
as imagens
e as horas

Sobre o caos, no entanto
flutua a poesia
aninhando-se, incólume
nas dobras aveludadas da alma

Athayde



CRENÇAS

No céu ornado de brilhantes lumes
A musa do poeta, pálida, esvoaça.
Entre os Íris fulgurantes do infinito
Como a esperança de um verso ela perpassa.

E corre e serpenteia, estonteada e lassa,
Atrás de um astro novo, que o poeta vê.
Mas não. Onde jamais ela puder chegar
Está o astro novo em que o poeta crê.

Um astro luminoso, de flamante cauda
Com o núcleo de idéias refervendo.
Vazio de frieza, febril de tanta crença
Das crenças em que o poeta vive crendo.

Athayde



CREPUSCULAR

Nos interstícios do tempo
vagam os sonhos
depredando-se
nos quadrantes dessas horas mortas
sem alarido, sem clarões

Definham, apenas,
apertados entre as rugas
de esperanças envelhecidas
esquálidas, inermes

No ar, somente os restos
de sons imaginários e fugidios
....mero prelúdio da elegia que se ergue
ao fim da viagem melancólica.

Athayde



CREPÚSCULO

Essa tarde tão pálida e vazia
Parece tão repleta de saudade
parece vem trazer-me esta agonia
Misturada ao murmúrio da cidade.

O silêncio é uma prece ao fim do dia
Ecoando para além da eternidade
Das dobras do horizonte, a poesia
parece refletir a imensidade.

Mas a tarde se esvai, e num lamento
Para os braços da noite ela se lança
De suas dores buscando abrandamento.

Em troca, as estrelas por herança
Pois o crepúsculo deixa em testamento
entre os bens do amanhã... a esperança.

Athayde


DÁ ME ...


Dá-me um olhar de amor, p’rá que eu viva
Dá-me um sorriso terno, p’rá eu sorrir
Embala os meus delírios no colo teu macio
Sê, mulher formosa, razão do meu existir.

Fala-me de nós com a voz enrouquecida
Do corpo teu ardente, dá-me o calor
E deixa-me queimar teus lábios rubros quentes
Com o fogo de minh’alma num beijo de amor.

Depois nossos sonhares gentis de enamorados
Juntemos, p’rá dourar um idílio eterno
E de mãos dadas andemos pela vida
Sem sentir da solidão o frio inverno.

Athayde



DESENGANO

Era um riso casto que sorria
E da vida o fanal me apontava.
Era uma doce promessa de futuro
Que a minha alma inteira embriagava.

Era a boca ridente que entre beijos,
Em frases fáceis murmurava assim
- “vivamos deste amor o doce enleio,
Pois este amor, eu sei, não terá fim”.

Era... Não... Eras tu que assim falavas
E no êxtase sutil e desvairado
Minh’alma naufragava em mar d’amores
Pensando o amor eterno ter achado.

Era de noite, eu me lembro, triste noite
A lua no infinito se espraiava,
E as estrelas tontas a seguiam
E do “nós” tu sorrindo, te apartavas.

Uma lágrima eu vi nos olhos teus?
Ou foram os olhos meus que se nublaram?
Ou foram os dois, que rindo de chorar,
Riram-se da farsa que encenaram.

Não sei, não sei, só do que me lembro
É o abismo que nasceu tão fundo,
Em que minh’alma afogou suas crenças,
As pobres crenças que forjou do mundo.

Athayde



DESPREZO E TREV
AS

Quando da vida já sonhava a glória
E c’os olhos crentes eu fitava o céu
Quando no fogo do amor eu me aquecia
Senti que um manto negro me envolvia
A fria noite do desprezo teu

Mas, fora belo amar-te, peregrino
Amante humilde, seguir-te todo dia
Buscando luz na luz do teu olhar
Buscando amor, amor para abrasar
Do teu cruel desprezo a noite fria

Ah! Que loucura, viver c’oa esperança
de ter o teu amor! Que sonho o meu!
Loucura imensa foi não ter sabido
fugir, p’rá não cair assim vencido
na fria noite do desprezo teu

E não me ouviste! Da rajada fria
Da indiferença tua ao negro açoite
Senti que a vida tudo me negava
E dos meus sonhos só o que restava
Era o teu desprezo a fria noite

Então voltei à vida, só e amargurado
Pálido e frio, qual perdido Orfeu
Trazendo por lembrança do passado
A lira morta, de um cantar fanado
E a fria noite do desprezo teu.

Athayde



“... E A MUSA MORREU NA INDIFERENÇA”

Poeta, deixa o teu verso escorrer
Pálido e triste, e solitário e mudo.
Deixa que o riso desdenhoso açoite
As pétala gentis do teu poema
Como a geada, que cresta as frágeis flores
No silencio cúmplice da noite

Não creias que o mundo entenderá
Que a poesia é um êxtase da alma
Que a solidão, para o poeta é uma voragem
E o turbilhão, para o poeta, inspira calma.

O mundo é surdo. A indiferença é abismo
Onde não cabe mais teu verso triste
Onde tua musa resvalando passa
E p’rá acolhe-la, nem um sonho existe.

Onde tua musa já não tem abrigo
Nem lar, nem flores, nem um seio ardente
Alma em exílio, a vagar sozinha
Em meio ao riso da turba indiferente

É tarde. Dorme. Esquece os teus cismares
Não eleves mais teu pensamento nobre
Deixa que morram a musa e a poesia.

Vai repousar no sono a fronte extenuada.
Depois, sê como o mundo, miserável e pobre;
Trabalha e vive, sem lutar por nada.

Athayde



ELA... A QUE EU AMO TANTO


Eu viera me escoando pela vida
Com a alma exangue, estiolada
Entre os amores de mulheres tantas
Que passaram por mim, vezes sem conta
Que passaram por mim, deixando o nada.

Hoje eu vi uma mulher
E ela é tão formosa, que um artista
Um gênio celeste, enfim, foi-lhe o escultor
Sua boca se enfeita com sorriso casto
Mas deixa entrever de um beijo o sensual langor

E dela
A voz é uma carícia suave e quente
Que fala de um amor gentil e puro
E junto às ilusões do amor nascente
Exala a sinfonia do futuro.

Sou feliz. É que
A minha vida, que era antes
Um frio naufragar em mar d’ escolhos
Tem hoje um ideal. E por estrela-guia
Tem o luzir sublime dos seus olhos.

Athayde



EM CHAMAS


Arde a terra.
No chiado de troncos e folhas
a vida estertora
asfixiando ares
e lares

Línguas vermelhas
desenhando ironias
e epitáfios
sobre a lápide do amanhã

O resto?
A fuligem, apenas,
amortalhando a vida em agonia
nas entranhas
candentes da terra

apenas a fuligem
tingindo de negro
os pulmões do mundo
e a roupa no varal.

Athayde



ENQUANTO O SONO TARDA

Da coletânea "É tempo de poesia" - 1980

Gosto de poetar sem compromisso, às vezes
Quando essas horas caem vagarosas, mortas
Quando, no espaço, deriva o pensamento vago
E as musas, flutuando, vêm bater à porta.

Talvez que seja um êxtase o verso em desalinho
Talvez que o silêncio é que desperte a musa
Talvez seja a lembrança de um passado extinto
Ou uma idéia, talvez, da mente já confusa.

Não sei. Só sei que as estrofes nascem
Nesses momentos largos, de cismar tristonho
E vultos e castelos perpassam mudos, trêmulos
E se esvaem após, como se fossem sonho.

E as horas vão passando lentas, calmas, vagarosas
E o cérebro fervilha no pensar sem fim
E vultos e castelos desmaiam lentamente
Enquanto o sono chega...e adormeço, enfim.

Athayde



ERA UMA VEZ ... UM RIO


Era uma vez...Como toda história incrível
Assim começa a de um rio enorme, ingente
Que tantas vezes despertara a lira
dos seus cantores, no cantar ardente

Era uma vez...Ai, caudalosas águas
Que o beijo audaz às pedras atirando
Era uma vez... Ai, marulhosas ondas
Sublime orquestra nos confins vibrando

Era uma vez...Por entre as rochas duras
O forte estrídulo das águas despencando
Era uma vez...Da névoa das espumas
a “Noiva” se erguia, no íris se embalando

Era uma vez...O portentoso berço
De tantos gênios que a Natura cria
Era uma vez...Como diadema augusto
Na fronte do Brasil, ao sol resplandecia

Era uma vez...As margens escarpadas
Tentando em vão conter esse lençol de prata
Era uma vez...As águas prazenteiras
Cantando serpeavam no verdor da mata

...Era uma vez...Findou-se tanta glória
E jaz na terra o rio agonizante
Era uma vez...E a boca das cloacas
Vomitam ironias à morte do gigante

E eu sei, no entanto, que o morrer de um rio
É muito mais que a morte da corrente
É o prêmio enfermo das nações que correm
Buscando a glória e o progresso, e morrem
Em meio ao lodo que restou...somente.

Athayde



ESTROFES A CASTRO ALVES
(Por ocasião do centenário de morte
de Antônio de Castro Alves)

I

Musa, vem dar-me o estro suave e grandioso
P’rá eu cantar solene a glória destas plagas
P’rá eu poder colher, no fundo do oceano
A gema sem igual, que dança ao tom das vagas

Eu quero as asas longas p’rá chegar ao Olimpo
Eu quero ser o condor, p’rá pousar nos Andes
Vem dar-me ao verso pobre a majestade e o brilho
De quem se alteia enorme p’rá cantar os grandes

II

Era no seis de julho. De lá da Grécia antiga
Donde se erguera a voz dos místicos aedos
De lá da plaga etérea, onde dançavam musas
Contando-se, entre si, amores e segredos

Da Europa sempiterna que criava os gênios
E d’Ásia embriagada em seus mistérios grandes
E d’África esquecida em seus talentos nobres
Rolou sombrio pranto, que molhou os Andes

Era no seis de julho! De todos os quadrantes
A alma do Universo naufragou no abismo.
Choravam as nações, as musas e os escravos
Pasmos, aturdidos, no horror do cataclismo

III

Um dia a poesia não foi langor somente.
Foi hino de batalha, intimorato e nobre
Foi lágrima infantil, chorada em sepultura
Foi púrpura real, vestindo o velho pobre

Um dia, ela andou pelo deserto ardente
Sentindo a mesma dor do escravo africano
Um dia ela desceu aos cárceres imundos
Onde morria um povo aos olhos do oceano

Ela cantou, um dia, um noivado estranho
Do escravo que encontrara sua ideal consorte
E calmo e majestoso, transpirando amores
Casou com a liberdade, no palor da morte
Descendo à senzala foi ouvir, suave,
O canto da mãe negra embalando o filho
E ouviu a desgraçada ensinando ao pobre
Crenças, esperanças, da virtude o trilho

Ela chegou-se, um dia, ao tronco umedecido
Onde arquejava o escravo, sob a dor atroz
E viu por toda a terra sangrar a humanidade,
Jazendo, há tantos séculos, na opressão feroz

IV

E ela que descera do éter misterioso
Talvez p’rá ouvir da América a grandiosa orquestra
Talvez para dormir à sombra das palmeiras
Ou p’rá ver da natureza a buliçosa festa

Ela desceu do espaço, veio falar de amores
Veio espalhar o sonho, por sobre a terra inteira
Veio trazer o riso, p’rá sorrir com o mundo
... e viu medrar o crime, aos pés da Cordilheira

V

Então o Universo estremeceu convulso
Ao som do seu clarim, soberbo e arrogante
E os povos acordaram do ignóbil sono
... Ergueu-se o mundo inteiro ao seu rugir possante

Além, vagando infrene pelos pampas vastos
Ou mesmo nos abismos, por entre a fenda escura
Ela explodiu em chamas, esparzindo idéias
As frontes fecundando à geração futura

Não teve a liberdade lira maior que esta
Que a todos os cantões arremessava o grito;
Que, às orlas do oceano, bradava: “Liberdade”
E o eco respondia, das bordas do infinito

Jamais o verbo fora tão ardente e nobre
Nem fora o ideal tão arrogante e puro!
Nem fora a mocidade tanta luta e sonho
Nem tanto se elevara a crença no futuro!

E o mesmo rei dos astros, que vira o caos do mundo
E que velara os séculos, no passar veloz
Veio aquecer o Condor, nos Andes altanados
E assombrou-se ouvindo a sua dura voz

Assim foi a poesia o arauto da verdade
E verbo de justiça arremessado ao povo.
Foi o signo da fé, foi uma crença nova,
Foi o Sinai moderno de um Profeta novo.

VI

Por isso, Musa, eu ousei pedir-te um dia
A mesma lira que deste a Orfeu, outrora.
Foi por querer cantar, com o esplendor dos deuses
A glória de um povo, centenária agora.

E como estão exaustas estas asas longas,
Com que vaguei no espaço, dos astros através!
Com que tentei trazer os louros das idades,
E a poeira de estrelas das imensidades,
P’rá desse vate eterno vir rojar aos pés.

Athayde



EU...

Eu vim deixando pelos meus caminhos
Em meio às flores, quanta vez espinhos
Minha alma pura escorrer em versos

Não sei se um dia, no findar da vida
Vou poder juntar as ilusões perdidas
E tantos sonhos que vivi, dispersos.

Athayde



EU E ELA


Eu vi uma mulher! Que olhos tão sublimes
Que cálido langor nos lábios rubros cheios
Que formas de escultura, e que andar tão leve
Que vida que palpita nos seus túmidos seios.

Possui-a! No êxtase empolgante dos delírios
Que sussurros ofegantes ela arfava
No sonho empíreo do prazer vivendo
Não sei bem se vivia, ou se sonhava.

Mas, não! Quem pudera descrever esses instantes
Minutos breves de delírios casto
O par cheio de amor e de desejos
Asfixiado no prazer tão vasto.

Athayde



EXALTAÇÃO A CASTRO ALVES


Quando nadava a estremecida pátria
No sangue escravo, de escravos mil
O brado teu alevantou-se altivo
A infâmia sacudindo do Brasil.

Foste tão nobre que o condor gigante
Tomaste por emblema do ideal
Calcaste da desonra o insano abutre
Nutrido do país na bacanal.

Da raça negra o paladino imenso
Da liberdade a gigantesca voz
O verso de fogo brandido na treva
Da tirania era o fatal algoz.

Os sonhos teus da liberdade negra
E de todas as nações a liberdade
Foi um sonhar sublime de profeta
Os olhos crentes fitando... a eternidade.

Foi bem fugaz da tua vida a história
Mas, sempiternos são os louros teus
A glória, no futuro, a pátria guarda
P’rá fronte coroar dos filhos seus.

Athayde



FANTASIA

Voa, poeta, ao teu país de sonho
Deixa levar-te a gentil quimera.
Afasta-te do mundo, vai mais longe
És mais feliz, nas plagas d’outra esfera

Fecha os olhos. Não vês que a fantasia
Liberta a alma da falaz procela?
Sonha, poeta, que o teu sonho puro
Na placidez da noite a tua musa vela.

Lá, nesse país distante, nesse novo Éden
Não há tristeza, nem dúvida ou tormento
É um mundo novo, em que resplandeces
Na eternidade de um fugaz momento.

Mas, não importa, É um país divino
Onde a justiça e a paz têm as mãos dadas
E onde a guerra, a fome, a angústia, o crime
As gentes do teu século não oprimem
É o mundo, enfim, onde há... o nada.

Athayde